quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

O bloquinho

Queria um bloquinho. Todos os meus pensamentos sempre estiveram desorganizados. Cada um em um caderno, papel ou folha rasgada. Cada um refletindo uma coisa que tempera e/ou corrói o estomago.
Queria um bloquinho.
Um lugar onde pudesse palmilhar durante uma tarde chuvosa em busca de nostalgia. Onde pudesse chorar o passado e, na próxima página, sorrir, amar...
Queria clareza, coerência e um chá quente em minha vida.
É dose!
Como posso querer ter tudo isso? É tão melancólico (e sublime)! Ainda mais que, ao invés de bloquinho, tenho um amor desorganizadamente...

...grande.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Deu no Estado de S. Paulo

O crepúsculo dos sábios

Apática, sem maravilhamento, a universidade pós-moderna se esqueceu de sua dívida simbólica com as gerações passadas
Olgária Matos - O Estado de S.Paulo



 - O conceito de universidade moderna e a natureza do conhecimento que ela produziu até os anos 1960 tinham por objetivo formar o cientista. Este representava o "mestre da verdade" porque capaz de compreender seu ofício na complexidade dos saberes e da história. Sua autoridade procedia de sua palavra pública, pela qual se fazia responsável. O cientista era o intelectual, e para ele a pesquisa não correspondia a uma profissão, mas a uma vocação. O conhecimento mantinha sua autonomia com respeito às determinações imediatamente materiais e do mercado. Sua temporalidade - a da reflexão - compreendia-se no longo prazo, garantidora da transmissão de tradições e de suas invenções.

A universidade pós-moderna, por sua vez, converte pesquisa em produção, constrangendo-se à pressa e à produtividade quantificada do conhecimento, adaptando-se à obsolescência permanente das revoluções técnicas, promovidas pelas inovações industriais segundo a lógica do lucro. A temporalidade do mercado confisca o tempo da reflexão, selando o fim do papel filosófico e existencial da cultura. Para a universidade moderna não cabia a pergunta "para que serve a cultura", mas sim "de que ela pode liberar". A universidade moderna elevava a sociedade aos valores considerados universais no concerto das nações que procuravam uma linguagem comum ao patrimônio cultural de toda a humanidade, devolvendo-o à sociedade com seus maiores cientistas e seus melhores técnicos. Essa foi a tradição de Goethe que havia formulado a ideia da Weltliteratur, da literatura universal como cosmopolitismo do espírito.

A universidade pós-moderna é a da indiferenciação entre pesquisa e produção. O intelectual cultivado foi destituído - em todos os domínios do conhecimento - pelo especialista e seu conhecimento particularizado, cujo contato com a tradição cultural é episódico ou inexistente. Seu discurso não diz mais o "universal" e se limita a formulações técnicas, perdendo-se o sentido do conhecimento e seus fins últimos, com a passagem da questão teórica "o que posso saber" para a pragmática "como posso conhecer". Pra Gunther Anders, o emblema da conversão do intelectual em pesquisador, da razão crítica em desresponsablização ética e racionalidade técnica, foi Fermi na Itália e Oppenheimer nos EUA, cujas pesquisas sobre a bomba atômica foram tratadas por eles em termos estritamente técnicos.

A universidade pós-moderna não lida mais com as "grandes narrativas" nem busca a fundamentação do conhecimento e seus primeiros princípios. Como o mercado, se pauta pela mudança incessante de métodos e pesquisas. Nada aprofunda, produzindo uma cultura da incuriosidade, imune ao maravilhamento. Em sua pulsão antigenealógica, acredita que tudo o que nela se desenvolve deve a si mesma, não reconhecendo nenhuma dívida simbólica com as gerações passadas. Essa circunstância, por sua vez, pode ser compreendida no âmbito da massificação da cultura e da universidade.

Com a ditadura dos anos 1960 no Brasil, a universidade pública moderna - concebida de início para formar as elites governantes, a partir do ideário de universidade cultural, científica e com suas áreas técnicas - começa sua desmontagem, o que e resulta em sua massificação. Sob a pressão de massas historicamente excluídas dos bens científicos e culturais, bem como do sucesso profissional aferido pelo enriquecimento nas profissões liberais, a universidade pós-moderna acolhe populações sem o repertório requerido anteriormente para a vida acadêmica. Face ao ideário moderno baseado no mérito de cada um e não mais no sistema nobiliárquico do nascimento, e sua incompatibilidade com a desigualdade real de oportunidades para a ascensão social, a universidade pós-moderna questiona, contrapondo-os, mérito e igualdade, reconhecendo no primeiro a manutenção do regime de privilégios e distinções do passado.

Assim, a universidade atual adapta-se à fragilidade do ensino fundamental e médio, passando a compensar as deficiências dessa formação. Para isso, a graduação retoma o ensino médio, a pós-graduação a graduação, o doutorado o mestrado, cuja continuidade é o pós-doutorado, tudo culminando na ideia da "formação continuada" e de avaliações permanentes. Ao mesmo tempo, a ideia de pesquisa moderna anterior transforma-se em fetiche pós-moderno, tanto que a iniciação científica se faz para estudantes em preparação para a vida universitária adulta, mas constrangidos a publicações precoces. O paradoxo é grande, uma vez que, maiores as carências nos anos de formação do estudante - como a precariedade no acesso à bibliografia em idiomas estrangeiros e dificuldades de expressão oral e escrita na língua nacional -, mais estreitos são os prazos para a conclusão de mestrados e doutorados. Prazos e métodos, por sua vez, migram das disciplinas científicas para todos os campos do conhecimento, sob o impacto do prestígio da formalização do pensamento, como é possível reconhecer, em particular no estruturalismo e, mais recentemente, no linguistic turn, sua legitimidade garantida pelo rigor científico de suas formulações. Acrescente-se o abandono da ideia de rigor na escrita e o fim do estilo, com o advento do gênero paper e a multiplicação de congressos no mundo globalizado.

Massificada a cultura, proliferaram, com a ditadura militar, a privatização do ensino e seu barateamento, as universidades particulares - salvo as exceções de praxe - prometendo ascensão social e acesso ao "ensino superior" e decepcionando suas promessas. A universidade moderna que a antecedeu garantia o exercício da formação especializada e se encontrava na base dos cursos técnicos com formação humanista para todos os que não se encaminhavam para a pesquisa, devendo atender à profissionalização, mas também à felicidade do conhecimento.

A emergência da universidade pós-moderna diz respeito ao abandono dos critérios consagrados até então a fim de democratizá-la. Mas a democratização pós-moderna é massificação. A sociedade democrática comportava diversas representações das coisas: os partidos representavam as diferentes opiniões, os sindicatos os trabalhadores, a Confederação das Indústrias os empresários. Na sociedade pós-moderna, o consenso é produzido pela mídia e suas pesquisas de opinião, através da eficiência persuasiva da televisão, que primeiramente cria a opinião pública e depois pesquisa o que ela própria criou. Razão pela qual massificação significa perda da qualidade do conhecimento produzido e transmitido, adaptado às exigências de massas educadas pela televisão, com dificuldade de atenção e treinadas para a dispersão, mimadas por uma educação que se conforma a seu último ethos.

A cultura pós-moderna é a da "desvalorização de todos os valores". Sua noção de igualdade é abstrata, homóloga à do mercado onde tudo se equivale. Em meio à revolução liberal pós-moderna, a universidade presta serviços e se adapta à sociedade de mercado e ao estudante, convertido em cliente e consumidor, como o atesta a ideologia do controle dos docentes por seus alunos.

Em seu ensaio Filosofia e Mestres, Adorno diz, temendo incorrer em sentimentalismo, que o conhecimento exige amor. Sua universidade, a de Frankfurt, era moderna, humanista, como era humanista o professor de uma fita italiana dos anos 1970. No filme, estudantes impedem o franzino docente de literatura românica com seus compêndios eruditos de entrar na sala de aula onde discutem questões do curso. Sentado em um banco, o mestre escuta o vozerio e ruídos de cadeiras sendo arrastadas. Por fim é chamado e, quando entra, os estudantes em suas carteiras estão em círculo, e o professor senta-se entre eles. Discutem então o que o professor deveria ensinar-lhes. Como não chegam a nenhum consenso e o dia se faz crepuscular, decidem finalmente deixar que o professor se manifeste. Ao que o professor, retomando seu lugar junto à lousa e diante de todos, anuncia: "Estou aqui para ensinar a vocês a beleza de um verso de Petrarca".

Metáfora rigorosa para a educação, da escola maternal à universidade, o conhecimento, como escreveu Freud, é uma das tarefas mais nobres da humanidade no longo processo de sua humanização.


Professora de filosofia da USP

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

terça-feira, 27 de outubro de 2009

A ventania!

Era noite em seu corpo, todos os cheiros se misturavam e o enjoavam. Não sentia mais seu coração, e os poros estavam entupidos. Havia desistido do amor, sentimento que não lembrava mais como é. As ruas passavam cinzas pela sua visão, caminhava "melancólico e vertical". As flores nem desabrochavam pra ele, era passar perto que se fechavam em reclusão. Não tinha uma energia muito boa, fato.
Até, que em um dia nublado, como os outros, ventou! Uma ventania de erguer casas e corações. Soprou, soprou e foi ficando cada vez mais forte, circulando e formando tufões e furacões...os vulcões erupiam um magma vermelho, quente e forte.  Levou as nuvens escuras embora, e trouxe uma névoa enigmática que para transpassar não precisava de visão, somente era necessário usar o músculo a pouco atrofiado que desembestou a bater.
Passado o tufão, contraditoriamente, não parou de ventar. Os pássaros voavam loucamente, cantando e voando. As formigas pararam seu trabalho de reconstrução do formigueiro só para observar. Escorria mel pelos poros que se misturavam ao sal do suor formando uma solução forte, onde solvente e soluto tinham seu espaço, ora misturados, ora separados, no mesmo copo. Milhões de reações quimícas aconteciam, na mesma vida!

domingo, 25 de outubro de 2009

Momentos entre os segundos da mente

O mundo era um acúmulo de não-sensações. Em cada canto, não via nada. Desistira dessas visões vermelhas, destes sorrisos faceis, pois achara que eles não podiam mais existir, e já que era assim, levava qual o mar os lixos da praia, por consequência. Vivia por consequência. Em cada canto via flores murchas, ainda mais quando olhava para mim, bem lá dentro, havia um jardim de flores murchas. Cinzas e murchas. Mas sempre houvera uma busca, por uma areia mais úmida, uma flor ao invés de uma planta. Mas não encontrava, va, va, va, ia, ia, va, ara, ia, ia, era...

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quinta-feira, 15 de outubro de 2009

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Artigo e devaneios

Li um texto do Eduardo Galeano muito bom, onde analisa as multiplicidade de informações as quais somos submetidos, e que nos levam a falta de conhecimento e distanciamento com o mundo. Isso é sintomático! A nossa necessidade de verdades e de sentimentos nas nossas relações, provavelmente é ampliada por essa enorme quantidade de informações iguais. Redes midiáticas veiculam as mesmas informações durante todo o tempo. E acessamos e nos julgamos informados, quando na verdade estamos controlados pelo o que nos veiculam. Normalmente aceitamos as informações servidas ao molho pardo, por grandes corporações, e poucos de nós corremos atrás de outro tipo de visão e análise. Já falei sobre alguns problemas da mídia aqui, é um assunto que me interessa muito. Não apenas o que ela passa, mas também, como podemos ampliar os canais de comunicação. Não só na internet, mas na vida real.

Por uma mídia mais aberta, onde veiculem diferentes notícias. E por pessoas que gostem - além da internet, de televisores e de jornais - de se sujar na lama, tomar banho de mar ou brincar com o cachorro. E que assim, possam ver mais luz nas outras pessoas.